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Para quem convive com dorDor crônica e exercício

15 de agosto de 2026 · 8 min de leitura

Posso treinar em dia de crise de dor?

Talvez a pergunta melhor seja “como”.

Posso treinar em dia de crise de dor?

Você acordou num daqueles dias. A dor está mais alta que o normal, o corpo parece pesado, falta disposição para levantar e ir. E vem a dúvida: se eu for treinar assim, eu pioro?

Mulher sentada na cama, abraçando os joelhos, com a testa apoiada neles, perto de uma janela iluminada
Tem dias em que só levantar já é o desafio do dia.

Quando falo em dia de crise, estou falando de um dia de dor mais alta dentro do padrão que você já conhece. Aquele pico que você reconhece, que já aconteceu antes, e que costuma passar. Não estou falando de dor nova, diferente de tudo que você já sentiu.

Essa diferença importa, e volto nela mais adiante, porque existem dias que são exceção.

Por que repouso deixou de ser a resposta

Durante muitos anos, repouso e inatividade estiveram entre as recomendações para dor crônica. Isso está registrado na própria literatura, e mudou.

Mulher deitada no sofá assistindo TV e comendo pipoca, com livros ao lado
O sofá também vira hábito, e hábito também precisa de dose.

Hoje, para dor lombar crônica inespecífica, uma revisão publicada no JAMA em 2026 aponta que o tratamento de primeira linha inclui exercício de qualquer tipo, terapias psicológicas e cuidado multidisciplinar [1,2]. Exercício deixou de ser complemento e virou o centro.

O motivo é que a intensidade da dor crônica tem pouca relação com o estado do tecido no lugar onde dói. Autores da área descrevem que, nesse tipo de dor, o sistema que processa os sinais do corpo fica mais sensível e passa a gerar dor a partir de estímulos que antes não gerariam [4]. Isso significa que se mover, na maior parte dos casos, não está machucando nada.

E o repouso prolongado tem dois custos.

O primeiro é físico. Parar reduz condicionamento e força, e um corpo com menos capacidade tolera menos coisas, o que aumenta a chance de novos picos.

O segundo é o que você aprende com ele. Toda vez que você evita um movimento porque teme a dor, você confirma para si mesma que aquele movimento é perigoso. Existe literatura descrevendo como expectativas negativas sobre um tratamento ou uma atividade podem, por si só, piorar a experiência do sintoma [5]. Isso tem nome: efeito nocebo, o placebo às avessas. O repouso longo funciona assim, como uma mensagem repetida de que o seu corpo é frágil.

Sobre esse ponto do medo de se movimentar, escrevi separado, porque merece espaço próprio.

“Mas meu médico mandou repousar”

Depende de para que.

Bota ortopédica e muletas apoiadas sobre um sofá
Esse tipo de repouso tem prazo. E o prazo termina.

Se a orientação veio logo depois de uma lesão, uma torção ou uma cirurgia, ela faz sentido. Existe um período em que o tecido precisa de proteção. Mesmo aí, as diretrizes atuais pedem retorno às atividades o mais cedo possível, dentro do que for tolerado [6]. Repouso curto é conduta. Repouso longo, não.

Se a orientação foi dada para uma dor que já dura meses ou anos, vale uma segunda conversa. As recomendações para dor persistente mudaram bastante nos últimos anos, e nem toda orientação acompanha essa mudança na mesma velocidade. Isso não desqualifica ninguém: é muita informação nova, em muitas áreas ao mesmo tempo.

O que você pode fazer é levar a pergunta de volta ao seu médico, de forma direta: esse repouso é por quanto tempo, e o que eu posso fazer nesse período?

Quanta dor é aceitável durante o exercício

Essa é a dúvida que trava a maioria das pessoas, então vou ser específico.

Homem sentado na escada, enxugando o rosto, segurando um haltere pequeno na outra mão
Menos carga também é treino, não é desistência.

Sentir dor durante o exercício não significa, automaticamente, que você precisa parar. Uma revisão sistemática com meta-análise comparou programas em que a dor durante o exercício era permitida com programas em que ela era evitada. O resultado foi um benefício pequeno a favor dos exercícios que permitiam dor no curto prazo, sem diferença clara a médio e longo prazo. A conclusão dos autores é que dor durante o exercício terapêutico não precisa ser uma barreira para bons resultados [3].

Isso não é permissão para forçar. É outra coisa: a presença de dor sozinha não é um bom sinal de parada.

Na prática clínica, a régua que costumamos usar tem três partes. Nenhuma delas vem de um número definido em estudo, então trate como critério de conduta, não como lei.

Primeira: a dor durante o exercício precisa se manter num nível que você classificaria como tolerável. Você consegue seguir, conversar, respirar, e não está apertando os dentes.

Segunda: quando o exercício acaba, a dor deve ceder em pouco tempo. Não deve ficar horas no mesmo patamar.

Terceira: no dia seguinte, você deve estar em um nível leve e tolerável. Se acordou pior que antes de treinar e assim ficou, a dose do dia anterior foi alta.

Existe ainda uma inversão de lógica que muda o jogo. Em vez de decidir parar quando a dor aparece, decidir de antemão quanto vai fazer: dez minutos de caminhada, duas séries de oito repetições, o que for combinado. Você cumpre o combinado e para ali, mesmo que estivesse aguentando mais, e mesmo que a dor tenha aparecido no meio, desde que dentro do tolerável.

Isso tem uma razão. Quando o critério de parada é a dor, cada sessão vira um teste de resistência, e o resultado fica imprevisível. Quando o critério é tempo ou repetição, você constrói previsibilidade, e é a partir da previsibilidade que dá para progredir de verdade. É o princípio da exposição gradual: quantidades pequenas, repetidas, aumentadas devagar, até que o movimento que assustava vire rotina.

Se quiser conversar sobre como isso funcionaria no seu caso, me chama.

O objetivo do dia ruim não é o que você imagina

Aqui vale ajustar a expectativa.

Homem caminhando na esteira, exausto, enxugando a testa
Não é sobre acabar bem. É sobre não parar de vez.

Treinar num dia de dor alta provavelmente não vai fazer a dor sumir naquele dia. Não é isso que está em jogo.

O que está em jogo é não perder terreno. Manter o hábito, manter a capacidade que você construiu, e não deixar que o dia ruim vire uma semana parada, que vira um mês.

Quem entende isso sofre menos com os dias ruins, porque para de cobrar deles um resultado que eles não vão dar.

Faltar um dia não apaga o que você construiu

E se você não for, tudo bem.

Silhueta de homem apoiado em prancha no chão da academia, contraluz
Um dia difícil não apaga os dias que vieram antes dele.

Um ou dois dias sem treinar dentro de um programa de três meses é comum e não apaga nada do que você fez. Muita gente se cobra pesado por um dia perdido, sendo que vinha extremamente consistente até ali.

A única coisa que importa é a exceção não virar regra.

O trabalho do profissional que acompanha você é justamente esse: reduzir a frequência com que esses dias aparecem e, quando aparecerem, fazer com que sejam menos intensos e menos incapacitantes.

Os dias que são exceção

Tudo o que escrevi até aqui vale para o pico de dor que você já conhece. Alguns dias saem desse padrão: dor nova ou diferente da sua, dor que apareceu depois de queda, pancada ou torção, dor com perda de força, dormência ou alteração de reflexos, dor com febre ou perda de peso sem explicação. Some a isso os dias de dor extrema e incapacitante, de noite inteira sem dormir ou de estresse muito acima do que você costuma lidar.

A conduta é diferente nos dois grupos. Nos casos de dor nova, de trauma, de alteração neurológica ou de sinais sistêmicos, procure avaliação médica antes de qualquer treino. Nos casos de dor extrema, noite perdida ou estresse fora da curva, treinar não está proibido, mas o dia pede muito menos que o habitual, ou pede descanso mesmo. Essa leitura fica bem mais simples quando alguém acompanha você de perto.

Enfrentar não é só questão de vontade

Existe uma diferença grande entre quem atravessa um dia de dor alta sem saber o que está acontecendo e quem atravessa entendendo.

Dois homens conversando em frente a um quadro branco com um plano de exercícios escrito
Entender o plano tira peso de cima de quem treina sozinho com a dúvida.

A segunda pessoa não tem menos dor por ser mais forte. Ela tem menos medo porque sabe o que aquele pico significa, sabe que já passou antes e sabe o que fazer com ele. E isso não vem de motivação, vem de informação bem explicada, de alguém que conhece a sua história e traduz o que está acontecendo no seu corpo.

Essa mudança não é só de humor. O sistema nervoso responde ao que você acredita sobre a própria dor. Quando o movimento deixa de ser interpretado como ameaça, ele tende a ser sentido com um volume menor.

O que dá para fazer num dia desses

Uma caminhada é simples e pode ser exatamente o suficiente.

Mulher sentada fazendo um alongamento lateral do tronco, com halteres pequenos ao lado
Mobilidade não precisa ser grande para contar.

Exercícios de mobilidade não são glamorosos, mas podem ser a dose que o seu corpo aceita naquele dia.

Treinar regiões distantes de onde a dor está costuma funcionar quando mover o corpo todo está difícil.

O mesmo exercício de sempre, com menos volume, menos carga ou menos tempo, também conta.

O objetivo maior continua sendo correr, levantar peso, praticar esporte, brincar com os filhos. Só que nem todo dia é dia de evoluir ou de performar no máximo. Isso vale para quem tem dor e vale para quem não tem.

Como decidir qual dessas opções serve para o seu dia depende de como está o seu organismo, e isso é o assunto do texto sobre por que a dor às vezes piora depois do treino.

O que a evidência ainda não responde

Não existe um número mágico de dor aceitável validado em estudo. A régua que descrevi é critério clínico, construída a partir de literatura e de prática, e precisa ser ajustada pessoa a pessoa.

Também não existe protocolo pronto de dia de crise. O que existe são princípios: não parar de vez, reduzir em vez de cancelar, decidir a quantidade antes de começar e observar a resposta nas 24 horas seguintes.

É melhor ir do que não ir

É o que eu digo para as pessoas que atendo quando elas me mandam mensagem em dia de crise.

Homem e mulher comemorando dentro da academia, sorrindo e vibrando
Também existe alegria de ter ido, mesmo num dia difícil.

Ir é possível porque o que se faz lá dentro muda. O treino de terça não precisa ser igual ao de quinta. Quando existe alguém ajustando a dose, o dia ruim deixa de ser motivo para cancelar e vira mais um dia com uma proposta diferente.

Se você quer treinar com esse tipo de acompanhamento, me manda uma mensagem. A gente conversa sobre o seu caso e eu te explico como funciona.

Referências

1.Geneen LJ, Moore RA, Clarke C, Martin D, Colvin LA, Smith BH. Physical activity and exercise for chronic pain in adults: an overview of Cochrane Reviews. Cochrane Database Syst Rev. 2017;(4):CD011279. doi:10.1002/14651858.CD011279.pub3

2.Cashin AG, Chou R, Weimer MB, McAuley JH. Low back pain: a review. JAMA. 2026;336(2):144-58. doi:10.1001/jama.2026.9631

3.Smith BE, Hendrick P, Smith TO, Bateman M, Moffatt F, Rathleff MS, et al. Should exercises be painful in the management of chronic musculoskeletal pain? A systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2017;51(23):1679-87. doi:10.1136/bjsports-2016-097383

4.Neurophysiology of acute and chronic pain: from genes to pain. BJA Educ. 2025;25(9):357-66. doi:10.1016/j.bjae.2025.04.008

5.Colloca L, Barsky AJ. Placebo and nocebo effects. N Engl J Med. 2020;382(6):554-61. doi:10.1056/NEJMra1907805

6.Knezevic NN, Candido KD, Vlaeyen JWS, Van Zundert J, Cohen SP. Low back pain. Lancet. 2021;398(10294):78-92. doi:10.1016/S0140-6736(21)00733-9