Para quem convive com dorDor crônica e exercício
16 de agosto de 2026 · 9 min de leitura
Como saber se um profissional entende de dor crônica
O que observar, o que perguntar e quando desconfiar.
Para quem convive com dorDor crônica e exercício
16 de agosto de 2026 · 9 min de leitura
O que observar, o que perguntar e quando desconfiar.

Você já ouviu que era postura. Já ouviu que era emocional. Já ouviu que precisava fortalecer, e também que precisava repousar. Fez o exame que ia explicar tudo e ele explicou pouca coisa. Saiu de uma consulta com uma versão e da seguinte com outra.

No fim, sobrou para você decidir em quem acreditar. Sem ter estudado nada disso, e ainda por cima com dor.
Este texto é sobre isso. Não sobre quem está certo, mas sobre como você reconhece alguém preparado para cuidar do seu caso.
Vou começar pela minha própria área.
Me formei em Educação Física numa universidade excelente, quatro anos e meio de curso. Dor foi mencionada várias vezes ao longo da graduação. Estudada de verdade, nenhuma. Saí de lá sem entender como a dor funciona, e essa é uma lacuna curiosa, porque quase todo profissional de Educação Física atende, todo dia, alguém que sente dor.
O que me surpreendeu veio depois. Conforme fui estudando o assunto e conversando com colegas de outras áreas, percebi que a lacuna não era só nossa. Dor aparece pouco na formação de quase todo mundo que trabalha com ela. O preparo em dor, hoje, depende muito mais do que o profissional estudou depois da graduação do que da profissão que ele escolheu.
Isso não é falha das pessoas. É um problema de estrutura de ensino, e problema de estrutura demora a mudar. Só que quem convive com a consequência disso, no consultório, é você.
Dor crônica é complexa por natureza. E quando um problema complexo encontra uma formação que não o cobriu, aparece um raciocínio mais ou menos assim: como eu explico e resolvo esse problema que eu não sei bem como funciona, usando a técnica que eu sei fazer?
Daí saem explicações que parecem científicas. Usam vocabulário científico, tom científico, postura científica, mas se apoiam em argumentos que nunca foram testados de forma adequada. Costumam ser explicações muito simples para um problema que não é simples, e é justamente isso que as torna atraentes.
Um exemplo de quanto essa simplificação é comum: cerca de 90% das pessoas que procuram atendimento por dor lombar têm dor lombar inespecífica, sem associação com uma condição estrutural identificável [1]. Em uma das principais publicações sobre o tema, os autores registram que, para quase todas as pessoas com dor lombar, não é possível apontar uma causa específica, e que apenas uma pequena parte tem uma causa bem compreendida, como fratura, tumor ou infecção [2].
Ou seja: na maior parte dos casos, apontar uma causa única e definitiva é ir além do que a evidência permite.
Estes são os sinais mais confiáveis, e todos são observáveis por você já nos primeiros encontros.

Nenhum destes, sozinho, condena ninguém. Vários juntos são motivo para procurar outra opinião.
Faça sem constrangimento. Um bom profissional gosta dessas perguntas.
O que você acha que está acontecendo comigo, e com base em quê?
O que eu vou estar fazendo sozinha, entre as sessões?
Como a gente vai saber se está funcionando?
A primeira separa quem raciocina de quem repete. A segunda revela se o tratamento depende só dele. A terceira mostra se existe critério para avaliar o resultado, ou se vocês vão seguir no escuro.
Se quiser conversar sobre o seu caso, me chama.
Raramente um profissional sozinho dá conta de tudo.

Exercício e educação em dor têm papel central, e as diretrizes atuais colocam isso de forma clara. As diretrizes brasileiras de tratamento da fibromialgia, publicadas pela Sociedade Brasileira de Reumatologia, dedicam toda a primeira parte ao manejo não farmacológico [3].

A psicologia ocupa um lugar importante e ainda pouco comentado, principalmente nos quadros mais complexos. Algumas psicoterapias aparecem nas diretrizes ao lado do exercício, como primeira linha de tratamento. Percebo que o preconceito antigo com esse encaminhamento vem se desfazendo, e é uma boa notícia.
E quando outros sintomas ficam muito salientes, como fadiga intensa, alterações de sono, sintomas cognitivos ou emocionais, faz sentido procurar o especialista correspondente para avaliar a necessidade de intervenção medicamentosa.
O que caracteriza um bom encaminhamento é o profissional reconhecer o limite dele e dizer isso para você.
Saí da graduação com a mesma lacuna que descrevi aqui e fui atrás por fora. Um curso de mais de duzentas horas dedicado só a dor, uma pós-graduação em reabilitação que termino em abril de 2027, e uma lista de assuntos que a Educação Física não cobre bem: fisiopatologia, neuroanatomia, método científico, modelo biopsicossocial. Aprendi inglês sozinho no caminho, porque quase nada do que eu precisava ler tinha tradução.
Trabalho na área há mais de oito anos, três deles com foco em dor crônica.

Hoje coordeno o setor terapêutico do Instituto Biosete e sou coordenador científico e educacional da ARCO, uma pós-graduação em reabilitação musculoesquelética. Nos dois lugares faço a mesma coisa: acompanho o que a literatura publica e traduzo isso em conduta, junto com fisioterapeutas e outros profissionais de saúde. Foi daí que saíram as cinco fichas de avaliação que desenvolvi, hoje usadas por mais de mil profissionais, e o livro sobre fibromialgia que publiquei este ano.
O que isso muda para você é simples: passo os meus dias lendo e discutindo dor com gente que trata dor. É esse repertório que chega no atendimento.
Formação, credenciais e registro profissional estão na minha página de formação.

Não tenha vergonha de perguntar, questionar e comentar. Sempre com respeito, mas com o objetivo de chegar na melhor condução do seu próprio caso.
Se ajudar, vá acompanhada de alguém. Peça segunda e terceira opinião. Procure saber onde o profissional se capacitou e como foram tratadas as pessoas que passaram por ele.
Sei que quem está com dor costuma estar fragilizada, e que isso empurra para decisões apressadas, tomadas pela urgência de resolver logo. Também sei que confiar em profissional de saúde é quase automático. Ainda assim, vale manter postura ativa sobre a própria saúde.
Qualquer profissional, seja ele qual for, é um facilitador. Ele mostra o caminho. Quem caminha é você. Terceirizar isso sem olhar é abrir mão do que você tem de mais importante nesse processo.
Se depois de ler tudo isso você quiser conversar sobre o seu caso, me manda uma mensagem.
A conversa serve para eu entender o que está acontecendo com você e para te dizer, com honestidade, se eu sou a pessoa certa. Se não for, eu te digo, e indico quem eu acho que faz mais sentido. Aplicar esses critérios em mim mesmo é o mínimo depois de um texto inteiro pedindo que você os aplique nos outros.
Referências
1.Cashin AG, Chou R, Weimer MB, McAuley JH. Low back pain: a review. JAMA. 2026;336(2):144-58. doi:10.1001/jama.2026.9631
2.Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-67. doi:10.1016/S0140-6736(18)30480-X
3.Heymann RE, Rezende MC, Braz AS, Ranzolin A, Reis APMG, Golmia APF, et al. Brazilian Society of Rheumatology's fibromyalgia treatment guidelines, part I: monitoring and non-pharmacological management. Adv Rheumatol. 2026;66(1):10. doi:10.1186/s42358-025-00507-x