Para profissionaisPrática baseada em evidências
12 de agosto de 2026 · 7 min de leitura
“Na teoria é uma coisa, na prática é outra”? Tem certeza?
Se sim, de onde vem o conteúdo que sustenta a sua prática?
Para profissionaisPrática baseada em evidências
12 de agosto de 2026 · 7 min de leitura
Se sim, de onde vem o conteúdo que sustenta a sua prática?

De vez em quando eu levo um puxão de orelha da realidade e percebo que me fechei numa bolha onde todo mundo acha que ciência importa para a prática profissional.
Há pouco tempo tive uma discussão na pós-graduação sobre a importância da ciência para a nossa profissão e como aplicá-la no atendimento. Para minha surpresa, aquilo não era consenso. A realidade é que boa parte dos profissionais negligencia a ciência, e uma parcela menor rejeita ativamente o que ela produz.
Na minha opinião, isso aparece em dois tipos de profissional: o que não conhece, por falta de acesso e de formação; e o que tem algo a ganhar com o desconhecimento alheio. Prefiro acreditar que o primeiro tipo seja a maioria esmagadora.
Para o segundo tipo não vejo muita solução, porque ali o conflito de interesse já venceu. O primeiro é quem dá para ajudar. Ele provavelmente aprendeu a resolver os problemas da profissão pelo saber empírico passado por professores mais experientes, e é bem provável que o treinamento científico que recebeu na faculdade não tenha sido suficiente.
O que acontece com muito profissional é se enterrar tanto no conhecimento do próprio cotidiano que qualquer coisa que fuja disso é descartada. Afinal, se na minha prática funciona, para que perder tempo estudando? Se eu já descobri as respostas sozinho?
É uma posição perigosa, e leva o profissional a acumular um repertório que pode estar completamente desalinhado com o que existe de mais atual.
O resultado costuma ser a conclusão de que a ciência não serve para nada e que pesquisador não sabe da vida real. Só que a maioria das críticas duras que eu vejo vem de gente que não entende bem o que a ciência se propõe a fazer.

Sim, o resultado de um artigo não é a verdade absoluta sobre um fato. Nunca foi essa a proposta. Sim, a ciência falha e não é perfeita. Nunca se esperou que fosse.
A ciência é probabilística, falseável e corrigível. É um empreendimento coletivo que tenta se aproximar o máximo possível da descrição de um fenômeno. Não é dogma, não é verdade revelada, não é regra a ser obedecida. Muita gente é avessa à ciência não pela natureza dela, mas pelo desgosto com quem a interpreta mal.
E existe um complicador interno, mais difícil de resolver que qualquer falta de acesso: os vieses cognitivos.
O viés de confirmação é o mais conhecido. A gente presta atenção no que confirma o que já pensa e deixa passar o que contraria.

Tem o efeito Dunning-Kruger, que é muita confiança com pouco conhecimento. Quanto menos você conhece de um campo, menos você consegue enxergar o tamanho do que não sabe.
Tem o viés de pertencimento, que faz a pessoa seguir a opinião do grupo e engolir o que não acredita para não romper laços. Numa profissão organizada em torno de métodos e escolas de treinamento, esse é provavelmente o mais subestimado de todos.
E tem o viés de proteção do ego, que faz preferir uma explicação simples a uma verdade complexa, porque a verdade complexa costuma exigir mudança. Abandonar uma crença pela qual você foi recompensado durante anos é caro.
Nenhum desses vieses tem a ver com inteligência ou com caráter. Eles operam em todo mundo, inclusive em quem estuda. A diferença é que o método científico tem uma série de mecanismos criados justamente para reduzir os dele, e a nossa cabeça, sozinha, não tem nenhum.
Aqui preciso ser justo, porque a frase que dá título a este texto não é totalmente errada. Ela só está mal colocada.
Quando a prática baseada em evidências foi descrita, ela nunca foi definida como obedecer a artigo. Foi definida como a integração de três coisas: a melhor evidência disponível, a experiência clínica do profissional e os valores e preferências de quem está sendo atendido [1]. Os três pesam. Nenhum sozinho basta.

Sua experiência clínica é uma das três pernas. Ela é o que permite adaptar uma recomendação geral a uma pessoa específica, reconhecer quando algo não está funcionando e perceber o que não estava previsto no protocolo.

O problema não é valorizar a própria prática. O problema é usar a própria prática como se ela fosse suficiente para responder tudo, inclusive perguntas que ela não tem como responder. Sua experiência com algumas dezenas ou centenas de alunos não consegue dizer se um efeito é do exercício ou do tempo, se ele se sustenta, se aconteceria de qualquer forma. Não porque você observa mal, mas porque nenhuma observação individual controla essas variáveis.
Prática sem evidência vira repetição. Evidência sem prática vira protocolo aplicado no vazio.
Quando alguém diz que na prática é diferente, na maioria das vezes não está comparando a prática com a ciência. Está comparando com uma versão de segunda mão dela.
A informação chegou por um post, um curso, um congresso ou uma conversa. Passou por pelo menos uma cabeça antes da sua, e aquela cabeça tinha os vieses dela. Foi recortada para caber num formato, simplificada para caber num tempo, e às vezes escolhida a dedo porque servia ao argumento de quem contava.
Aí você testa aquilo no seu atendimento, não funciona como prometido, e a conclusão que sobra é que a ciência não bate com a realidade. Quando, muitas vezes, o que não batia com a realidade era o resumo que chegou até você.
Ler direto da fonte não resolve tudo. Mas elimina uma camada inteira de distorção, que é justamente a camada onde mora a maior parte dos desencontros entre teoria e prática.

Sei que ler artigo é hábito de poucos na educação física. Mas continua sendo o melhor caminho para orientar o próprio trabalho.
Maturidade profissional passa por navegar com naturalidade na produção científica e entender o que cada tipo de artigo pode, ou não pode, dizer. Aí você para de ficar refém de interpretação alheia, de filosofia de treino e de método que virou moda. Você passa a entender o peso de cada informação e o que dá para afirmar diante da evidência que te apresentaram.
Na minha experiência, nada paga a sensação de conduzir e argumentar apoiado em evidência. A segurança é outra e a confiança do cliente aumenta. E não é só com o cliente. É também na conversa com outros profissionais de saúde, quando você percebe que consegue sustentar uma discussão técnica de igual para igual sobre o seu tema de estudo.
Você consegue contra-argumentar, conduzir uma conversa densa e, se a pessoa resistir, mandar a referência de onde tirou aquilo. Boa parte das vezes a conversa termina aí mesmo, porque do outro lado não havia artigo nenhum.
Só que abrir um artigo e não saber o que se está lendo não resolve muita coisa. Escrevi um guia sobre os principais desenhos de pesquisa e o que cada um pode afirmar, porque é por aí que essa história começa a virar prática de verdade.
Se você já teve a sensação de que a ciência não bate com o seu atendimento, me conta qual foi o caso. Tenho curiosidade de saber se era a ciência ou a versão dela que chegou até você.
Referências
1.Sackett DL, Rosenberg WMC, Gray JAM, Haynes RB, Richardson WS. Evidence based medicine: what it is and what it isn't. BMJ. 1996;312(7023):71-2. doi:10.1136/bmj.312.7023.71