O profissional de educação física deveria escolher um problema, não um método
Estudar só exercício não explica o fenômeno com que a gente trabalha. Foi a ciência da dor que me mostrou isso.
Quando me formei, era um ávido estudioso e praticante do Treinamento Funcional, sobretudo pela ótica do Michael Boyle. Li seus livros, segui seus sistemas de treino, seus construtos teóricos e sua filosofia. Ainda assim, havia perguntas que continuavam sem resposta, e respostas simples demais para me convencer. Olhando para trás, eu estava no pico da curva de Dunning-Kruger, confiante demais no pouco que sabia.
Uma das minhas primeiras referências no Treinamento Funcional.
Funcionou por um tempo, até as perguntas virarem barreira e as respostas não darem mais conta de explicar o que eu fazia. Somado ao desejo de me tornar alguém dentro da profissão, comecei a ler o que outras áreas da saúde produziam. Comecei pela mudança de comportamento, passei pela bioantropologia evolutiva e cheguei na ciência que estuda a dor crônica.
A curva de Dunning-Kruger: confiança alta, conhecimento baixo.
Apaixone-se pelo problema, não pela ferramenta
Nesse caminho, entendi que o profissional de educação física costuma ser mais apegado à solução do que ao problema. Explico.
No mercado, o profissional se apresenta como instrutor de musculação, treinador de funcional, coach de cross, instrutor de pilates, coach de corrida. Ele usa um meio de treinamento para descrever a própria identidade profissional, sem necessariamente eleger um problema que se dedica a resolver. Isso traz três consequências.
Instrutor, treinador, coach: rótulos que descrevem a ferramenta, não o problema.
A primeira: todas essas são ferramentas. Deveriam ser usadas quando fazem sentido, não aplicadas como doutrina a todo mundo.
A segunda: para quem só sabe usar martelo, qualquer problema vira prego. Pessoas com objetivos, perfis e afinidades diferentes acabam treinando da mesma forma, que pode não ser a mais efetiva para nenhuma delas.
A terceira: o movimento humano é mais complexo e mais adaptativo do que muitas modalidades sustentam. Controlar a respiração, buscar alinhamento perfeito, classificar movimentos em certo e errado. Nada disso corresponde à natureza real do movimento humano.
Ganhando maturidade científica
Li, no livro do Boyle, que se você perde mobilidade no quadril, você TERÁ dor na lombar. Por muito tempo, segui isso à risca. Avaliava quadril, prescrevia mobilidade, explicava para o aluno que a dor dele vinha dali. Funcionava como explicação porque era simples, tinha causa, efeito e solução (na minha cabeça).
Anos depois fui procurar o que sustentava aquela certeza, e não encontrei. O que existe são estudos que fotografam um momento e mostram que as duas coisas às vezes aparecem juntas [1]. Aparecer junto não é o mesmo que causar. E quando alguém testou de fato tratar o quadril de quem tinha dor lombar, o resultado não foi melhor do que tratar apenas a lombar [2].
Amplitude de movimento importa em alguma medida [3]. Mas “você terá dor” não é uma constatação. É uma profecia. E profecia não é o tipo de coisa que a ciência entrega.
O problema aqui não é o Boyle. É o formato. Uma frase categórica, sem qualificação, dita por alguém em quem eu confiava, sobre um fenômeno que eu não entendia. Eu não tinha repertório para questionar, então obedeci. E ensinei aquilo para outras pessoas.
Nenhum desses dois está se movendo “errado”.
O mesmo vale para movimento errado, que é uma categoria bem mais frágil do que parece. Não há evidência sólida de que uma forma específica de se mover cause dor [4].
Nenhuma filosofia de treino explica um fenômeno biológico
O repertório que me faltava não veio da educação física. Veio da fisioterapia e da ciência da dor, e o que elas me apresentaram foi um fenômeno que a biomecânica sozinha não explica.
Dor crônica envolve neurofisiologia, psicologia, epidemiologia, fisiopatologia. Envolve sono, contexto, expectativa, história de vida. Nenhuma filosofia de treino e nenhuma modalidade foi construída para dar conta disso, porque não é para isso que elas servem. Elas organizam a prescrição de exercício, e isso já é bastante.
O corpo é mais do que a camada que a gente mais treina.
O que não faz sentido é esperar que um sistema de treino explique um fenômeno biológico melhor do que a biologia e a medicina, que são as áreas onde esse conhecimento é produzido.
Foi custoso abandonar crenças pelas quais eu era recompensado por ter. Mas o porquê das coisas sempre me chamou mais atenção do que o que fazer.
Treinador ou profissional da saúde
Sempre ouvi, em estágios e palestras, que devemos focar no ser humano à nossa frente. Mas o que significa atender um ser humano? No que isso se traduz na prática?
Existem muitas coisas na Educação Física que fazemos por feeling, e feeling, na verdade, costuma ser o nome que damos ao raciocínio intuitivo para resolver problemas na falta de outros conhecimentos. Conhecimentos que não vamos adquirir estudando somente os sistemas de treino.
Para atender alguém plenamente, na minha opinião, é preciso entender (não necessariamente dominar) biologia evolutiva, antropologia, ciências do comportamento, psicologia, neurofisiologia e sistema de recompensa, além de fisiologia e biomecânica. E, sobretudo, é preciso entender o problema que a pessoa quer resolver.
No fim, é sempre sobre a pessoa que está treinando.
O sistema de recompensa ajuda a entender por que seu cliente está com preguiça de treinar. Comportamento motor e filogenia do movimento ajudam a entender por que movimento errado é uma categoria frágil. Psicologia e neurologia ajudam a tratar depressão com exercício. Cardiologia e fisioterapia ajudam a atender cardiopatas. Nutrição e endocrinologia ajudam a atender obesidade.
Precisamos ler os mesmos documentos que essas áreas leem e falar a mesma língua, para sentar na mesma mesa e trocar informação que valha alguma coisa.
Depois de mais de oito anos desde que conheci o Treinamento Funcional, entendi que o profissional que só entende de exercício tem uma visão limitada do corpo, do movimento e do ser humano. Você provavelmente já sentiu isso: encostou numa barreira que fugia do escopo do exercício e não soube como seguir. Lidar com gente é difícil. Aderência é difícil. Sedentarismo é difícil. Condições de saúde são difíceis.
Por que a gente se especializa em coisas genéricas
E sabe onde tudo isso começa? Na especialização.
Por que a medicina e fisioterapia se especializam em problemas: cardiopatias, doenças metabólicas, ortopedia e traumatologia, e nós nos especializamos em fisiologia do exercício, em biomecânica? Áreas amplas, que não ajudam a resolver problemas concretos com precisão.
Energia dispersa versus energia direcionada.
Depois que escolhi um problema para ajudar a resolver, passei a enxergar meu papel na profissão com muito mais propósito. Isso te obriga a visitar todas as áreas que ajudam a resolver faces desse problema que a Educação Física é míope. O que é ótimo!
Escolha um problema
Esse é o meu chamado para a Educação Física: escolham um problema para resolver. Obesidade, diabetes, dor crônica, geriatria. Especializem-se em cada aspecto dele, da fisiopatologia à prescrição e monitoramento. Estudem sem parar. Usem o que estudaram todos os dias.
Uma modalidade de exercício, sozinha, não dá conta de explicar a mudança que a gente faz na vida das pessoas.
Se você já escolheu um problema, me conta qual. E se você discorda de alguma coisa que escrevi aqui, me conta também, porque foi assim que eu aprendi tudo o que está neste texto.
Referências
1.Avman MA, Osmotherly PG, Snodgrass S, Rivett DA. Is there an association between hip range of motion and nonspecific low back pain? A systematic review. Musculoskelet Sci Pract. 2019;42:38-51. doi:10.1016/j.msksp.2019.03.002
2.Burns SA, Cleland JA, Rivett DA, O'Hara MC, Egan W, Pandya J, et al. When treating coexisting low back pain and hip impairments, focus on the back: adding specific hip treatment does not yield additional benefits — a randomized controlled trial. J Orthop Sports Phys Ther. 2021;51(12):581-601. doi:10.2519/jospt.2021.10593
3.Sadler SG, Spink MJ, Ho A, De Jonge XJ, Chuter VH. Restriction in lateral bending range of motion, lumbar lordosis, and hamstring flexibility predicts the development of low back pain: a systematic review of prospective cohort studies. BMC Musculoskelet Disord. 2017;18(1):179. doi:10.1186/s12891-017-1534-0
4.Saraceni N, Kent P, Ng L, Campbell A, Straker L, O'Sullivan P. To flex or not to flex? Is there a relationship between lumbar spine flexion during lifting and low back pain? A systematic review with meta-analysis. J Orthop Sports Phys Ther. 2020;50(3):121-30. doi:10.2519/jospt.2020.9218